Jane Seymour: Vida e Trajetória de uma Consorte Tudor (c. 1508–1537)

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Jane Seymour foi a terceira esposa do rei Henrique VIII da Inglaterra. Ela faleceu de febre puerperal em 24 de outubro de 1537, aos 29 anos, depois de ter dado a Henrique aquilo que tanto almejava: um herdeiro varão, o futuro rei Eduardo VI da Inglaterra.

Um dos aspectos mais fascinantes na vida e trajetória da rainha Jane é o modo contraditório pelo qual seu curto reinado foi lembrado e mantido. Em 1532, ela se tornou dama de companhia da rainha Catarina de Aragão e, depois, serviu também à rainha Ana Bolena, até começar a ser notada pelo rei. O primeiro registro do interesse de Henrique por Jane aparece em fevereiro de 1536.

Ela era pálida, loira, de temperamento visto como tranquilo e maleável – ao contrário de sua antecessora. Jane não contou com uma educação refinada ou bem lapidada, tal como suas antecessoras, Catarina de Aragão e Ana Bolena. Ao contrário, sabia apenas ler e escrever um pouco, destacando-se mais nos afazeres domésticos, como costura e administração do lar. Por conseguinte, expressava suas opiniões a Henrique com menor frequência, não intentado ter a postura argumentativa das mulheres que a precederam.

Ainda assim, quando se aventurou a tocar em assuntos delicados com o monarca – como o fechamento (e saque) dos mosteiros, ou ao pedir-lhe que concedesse perdão real aos revoltosos da “Peregrinação da Graça” – foi advertida por ele a lembrar o destino da predecessora, que ousou “interferir em seus assuntos”. Após sua morte em Hampton Court, Henrique vestiu-se de luto por um longo período e não se casou novamente por três anos – embora as negociações matrimoniais tenham começado logo após sua morte.

Muitos historiadores afirmam que ela foi a esposa favorita de Henrique, justamente por ter lhe dado um herdeiro varão. Quando Henrique morreu, em 1547, foi enterrado ao lado de Jane na Capela de St. George, em Windsor. E aqui entra a contradição outrora mencionada: por cerca de 500 anos, Jane conseguiu manter-se cristalizada no imaginário popular como uma rainha ”doce, pacífica e perfeita”, apesar de ter jogado o mesmo jogo político que Ana Bolena – só que de modo mais cauteloso e precavido. Sempre se falou que a família Bolena era composta por alpinistas sociais, mas a questão é que a família Seymour também era e, em muitos aspectos, mais eficiente dentro das engrenagens políticas do período. No entanto, como no jogo da corte ora se ganha, ora se perde, décadas após o falecimento de Jane, seus dois irmãos acabaram executados por traição, depois de (a grosso modo) usarem sua memória para construir carreira e fortuna.

E quanto à “doce Jane”, quando Henrique lhe ofereceu pela primeira vez seus afetos, ela certamente não se desanimou pelo fato de ele já ter uma rainha, nem por respeito aos votos de casamento. Jane aprendeu com Ana que não precisava aceitar o papel de amante: uma dama de companhia podia, sim, “usurpar” uma rainha – e foi exatamente o que ela fez. Há indícios de que Jane sabia muito bem o que seu relacionamento com Henrique estava causando ao casamento dele e, também, que, naquele ponto, Ana dificilmente daria ao rei um herdeiro vivo, assim como Catarina não havia conseguido.

Isso não significa que Henrique não encontraria outro meio de se livrar de Ana se não estivesse apaixonado por Jane. Mas, sem uma mulher aguardando nos bastidores, será que ele teria optado por uma execução? O desastre com Catarina ainda estava fresco em sua mente, e ele não queria esperar para se casar com Jane e obter o herdeiro do sexo masculino, quando podia simplesmente levar Ana a julgamento. O que seria mais rápido – e menos incômodo – do que decapitar uma mulher em um dia e ficar noivo no seguinte?

Por sua vez, o relacionamento de Jane com Lady Mary (filha de Catarina) e Lady Elizabeth (filha de Ana) é algo, por si só, digno de nota. Ao contrário do que muitos pensam e especulam, Jane parece ter sido uma boa madrasta – apenas não no sentido “devoto” que alguns costumam romantizar. Diferente de Ana, Jane parecia ser naturalmente mais afetuosa com suas enteadas, não importasse qual delas fosse. Ela também ajudou Henrique a resolver seus conflitos com as filhas, a construir uma vida familiar mais “normal” diante das circunstâncias e a dar a elas a atenção que mereciam.

Atualmente, a academia vem, cada vez mais, desprezando (historicamente) o caricato senso comum de que Jane teria sido apenas uma “tola” que deu sorte por estar no lugar certo, na hora certa. Jane mostrou que não precisava de uma educação formal requintada para compreender o poder que tinha em mãos – e usá-lo de modo inteligente. A mulher outrora taxada de “inocente demais para uma rainha consorte” e sua família, segundo muitos historiadores, certamente tiveram um papel na queda de Ana Bolena, mostrando que, politicamente, as mesmas ferramentas podem ser usadas de modos diferentes, chegando a resultados diametralmente opostos.

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Essa foto mostra uma placa na entrada da Capela Real do palácio de Hampton Court, na Inglaterra. A placa combina o conjunto de armas de Henrique VIII com Jane Seymour, adornada por anjos sob uma coroa de ouro e rosas Tudor, como o lema de Henrique na parte inferior. Logo acima do lema e de cada lado do escudo, estão suas iniciais “H” e “I” entrelaçadas em românticos nós. (O ‘’I’’ é a inicial de Iana ou Iohanna – Jane em latim). 

14 comentários Adicione o seu

  1. Avatar de Raah Raah disse:

    Eu realmente nunca (desde que comecei a estudar esse assunto) pensei que Jane fosse inocente, boa e dócil como a pintam. Não é por ser fascinada por Ana que penso assim (adoro Catarina de Aragão) mas o fato é que Jane fez o mesmo que Ana fez, então porque uma é uma bruxa e outra é um anjo? Não faz sentido.
    Como você falou, os Seymour eram tanto ou mais ambiciosos que os Bolena, e mativeram uma posição elevada na corte durante muito tempo; se observarmos Thomas Seymour veremos que ele não tinha escrúpulos.
    Acho que Jane era um ser humano como qualquer outro, com suas falhas e qualidades; seria bom que as esposas de Henry deixassem de ser tratadas como personagens de uma novela histórica e fossem vistas como pessoas de carne e osso que viveram e morreram. Jane não é minha favorita e nem nunca será porque não acho que tenha realmente deixado sua marca na história, ela foi uma mulher comum para o século XVI que teve a sorte de ter sido incluída na teia de intrigas da Corte Tudor.
    P.S: Jane foi uma ótima madrasta para Mary, não para Elizabeth.

    1. Avatar de Tudor Brasil tudorbrasil disse:

      Concordo com você, mas tenho de contestar a informação. Jane foi uma ótima madrasta, sempre intervindo em casos entre o Rei e suas filhas. O ódio que dizem que Jane nutria por Elizabeth, em grande parte, provem de intrigas vitorianas, embora ela de fato, demonstrasse preferir Maria, por motivos óbvios. 🙂

  2. Avatar de Sathena Sathena disse:

    Não sei por que não consigo nutrir nenhum tipo de simpatia para Jane Seymour, mesmo lendo alguns textos que dizem que ela foi uma pessoa gentil e suave que ajudou a melhorar a relação de Elizabeth com o pai considero ela uma personagem fraca, quase apaga em sua personalidade muito submissa mesmo que fosse justificável sua atitude já que viu o que aconteceu com sua antecessora por ser “ousada”, ela não consegue me agradar e nem atrair positivamente.
    Quanto ao fato de ela ser a favorita, fica muito obvio por que isso é que ela foi a única rainha que deu um varão ( o tão esperado filho homem, se Henrique VIII soubesse que aquele mesmo menino seria quase insignificante na história Tudors para suas filhas mulheres brilharem seja de formar ruim ou boa como rainhas, deveria está se revirando no tumulo) para o rei, fico pensando qual de fato seria seu final se ela não tivesse tido o filho homem, além disso logo depois que ela morreu ele já mandou seus embaixadores começarem a procurar de uma nova mulher para o posto e a demora de três anos se deu pelo fato das famílias reais estivessem reticentes em darem suas filhas em matrimônio por causa da histórico marital dele no fim acho que Henrique VIII só amava a si mesmo. talvez tivesse atração e ate carinho, mas acho que amor nunca.
    Muito legal seu artigo, bem esclarecedor.

    1. Avatar de Tudor Brasil tudorbrasil disse:

      Olá Sathena, Jane foi um personagem interessantíssimo e envolto em mistérios que muitos preferem esquecer, pelo tórrido amor nutrido pela imagem de sua predecessora, Ana Bolena. Não podemos deixar, que nossas crenças pessoais, nos impeçam de conhecer profundamente uma figura histórica, principalmente com a importância de Jane, afinal, ela deu a Henrique, o inteligente Eduardo VI, que muitos esquecem, mas que preparou o caminho para o reinado protestante de Elizabeth, filha de Ana Bolena.
      Obrigada por comentar!=)

      1. Avatar de Nina Knowles Nina Knowles disse:

        O Eduardo não serviu para muita coisa, já q quem governou foi Elizabeth filha de Ana Bolena

      2. Avatar de Tudor Brasil Tudor Brasil disse:

        Eduardo foi um rei muito competente e inteligente. Infelizmente morreu jovem… Algumas políticas de reinado, especialmente as religiosas, seriam copiadas por sua irmã Elizabeth I, durante seu reinado. 🙂

  3. Avatar de penny penny disse:

    Jane parecia ser uma otima mulher , mais eu AMO Ana bolena.

    1. Avatar de Tudor Brasil tudorbrasil disse:

      Jane é um enigma, adoro isso. Pena hoje ela ter a imagem de vilã…

  4. Avatar de lindinha lindinha disse:

    não gosto de Jane acho ela mosca morta, mas tenho q confessar q se ela não intersedesse por Elizabeth, talvez ela n assumiria o poder 😦 Enfim Ana Bolena sempre será minha preferida, o grande problema dela era q ela tinha mtos inimigos e é por isso que caiu rapidamente ao chegar ao trono.

    1. Avatar de Tudor Brasil Tudor Brasil disse:

      Jane de mosca morta não tinha nada, eram apenas aparências, ela jogou o mesmo jogo que Ana, mas deu-se melhor pois conseguiu dar ao rei, seu tão almejado herdeiro varão! 😉

  5. Avatar de Nini Nini disse:

    Adoro Jane, a família dela era ruim! Mas, Ana Bolena e família, só pensavam em poder! Não gosto de Ana Bolena.

  6. Avatar de Bia Bia disse:

    Estava lendo acerca das esposas de Henrique e sinceramente quem casava com ele tinha um fim bem tragico….. ou morria ou acabava em exílio por causa do divorcio .. a unica que deu sorte foi a ultima que acabou viúva… llkkkkkkk…Brincadeiras a parte, a historia dos Tudors é fascinante e o site de vcs é incrível….me respondam algo que ate hj não encontrei confirmação em lugar algum…Houve realmente incesto entre Ana Bolena e seu irmão? boa semana 🙂

  7. Avatar de roberta fernanda roberta fernanda disse:

    Adoro a Jane,foi uma excelente observadora em uma corte perigosa… pena ter morrido tao cedo…se ela sobrevivesse ao parto acho q Maria e Elizabeth sao seriam tao desprotegidas

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